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Velhos e Rebeldes

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Caducar é renegar a magia lúdica da infância e aderir às lendas que a sociedade adulta venera. Velhos, fujam dessa derradeira ironia da vida, não caduquem.
Evitem essa tragédia resgatando sua infância, e não cedam aos apelos da vida adulta, que exigem de nós a adesão aos moralismos e preconceitos dominantes, ensinados como a ética da maturidade ou da idade da Razão.
É a adesão a esse moralismo que modela o chamado homem exemplar, diluído pela servidão voluntária. E, depois desse atrelamento, fica mais fácil a execução da tarefa modeladora dos demolidores do prazer de viver, que tanto mal fazem à formação livre da personalidade do adulto, transformando-o em agente da moral patriarcal. E carregando esta pesada moral, muitos adultos chegam à velhice existencialmente fragilizados.
Distantes da infância perdida, esquecem da prazerosa filosofia de vida de Peter Pan, o menino que se recusou a tornar-se adulto, preferindo viver livre e ludicamente, brincando o tempo todo, inclusive considerando uma brincadeira o rancor vingativo do capitão Gancho, símbolo do perigoso mundo adulto. Alegre e inocente, sem a memória do tempo, e despojado da sisudez dos adultos, Peter Pan simboliza o prazer de viver, adormecido em todo adulto, pois todos já fomos criança.
Velhos, resgatem essa lúdica vida infantil, o nosso maior patrimônio cultural, e rebelem-se contra a moral do bom velhinho, a quem é proibido ter os mesmos desejos infantis ou dos adolescentes.
Apreciem as belezas da anatomia humana, exaltem a diversidade da natureza, aceitem os limites da vida, enalteçam as fragilidades humanas, adquiram o riso inocente da criança, adotem a descontração da juventude, brinquem com seus amigos, saboreiem as frutas do pomar alheio, deixem de ouvir os conselhos excessivos dos seus médicos, peçam aos seus netos que leiam para vocês as fábulas de Esopo, os contos dos irmãos Grimm e as belas histórias de Monteiro Lobato.
Leiam os livros humorados de Luís Fernando Veríssimo, Jorge Amado, Ruy de Castro, e comprem pelo cartão de crédito do seu filho Os Cem Melhores Contos de Humor da Literatura, livro coordenado por Flávio Moreira da Costa. Não se esqueçam de tomar sorvete na rua, de ouvir e contar piadas com seus amigos, de usar roupas da moda e de debochar quando o time dos outros cai para a série B. Pratiquem essas receitas de vida alegre, e muitas outras praticadas na infância e na juventude. Perceberão, então, que a sociedade conservadora e moralista deplorará todos esses seus comportamentos, e dirá que vocês enlouqueceram.
Alegrem-se com essa nova etiqueta e riam dos seus invejosos críticos, pois é melhor ser um velho louco do que um velho caquético, já que o caquético inspira quando muito a piedade alheia, mas o louco no mínimo causa espanto, este insubstituível inspirador da dúvida, a tolerante e pacienciosa condutora da sabedoria.
O que escrevi, aprendi com Epicuro, Lucrécio, Friedrich Nietzsche, Molière, Cervantes, Martins Pena, Peter Pan, Carlitos, Marilyn Monroe, Woody Allen, Federico Fellini, na literatura de humor, nos contos infantis, nas minhas alegrias de menino, e com Nelsinho, meu inseparável amigo de infância, que também não desejava crescer. Mas, apesar deste seu desejo, Nelsinho cresceu, tornou-se adulto e envelheceu, sem jamais perder sua irreverência infantil, mantendo-se velho e rebelde. Adoecido, foi à consulta, e quando o médico perguntou se tinha vícios, exclamou com sua habitual ironia: “-Vícios, doutor? Tenho todos!”

 
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