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A mentalidade de rebanho, típica de quem não é livre, e necessita viver segundo a opinião convencional, acompanha a humanidade ao longo da vida civilizada, e continua enraizada em nossa sociedade. Quem adere a essa mentalidade de rebanho torna-se vítima dos demagogos, que se aproveitam dessa fragilidade humana, e facilmente arrebanham seguidores fanatizados, que cegamente adotam suas ideias. Este fenômeno acontece em todas as áreas da sociedade, mas destaca-se na esfera política com maior dramaticidade, e enraíza-se através das ideologias, algumas de curta duração e circunscritas a pequenos grupos humanos, mas outras de longa duração, arrebanhando segmentos mais amplos da sociedade. Entre as ideologias autoritárias mais amplas e atuantes na sociedade contemporânea estão o bolchevismo, na União Soviética, o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália, que protagonizaram os mais obscuros períodos da história contemporânea. Uma das razões da longevidade e da abrangência dessas ideologias autoritárias é o conteúdo consistente de seus princípios, que prometiam soluções mágicas e definitivas para as angústias de seus seguidores, aflitos e inseguros diante da grave crise estrutural do país onde habitavam. Na União Soviética, os bolchevistas prometiam que o socialismo, quando alcançado, seria o paraíso terrestre dos trabalhadores, e na Alemanha, os nazistas afirmavam que o nazismo era uma ideologia promotora de um império restaurador da raça ariana, e que duraria mil anos. As ideologias autoritárias efêmeras e de curta duração são destituídas dessa solidez ideológica, e decorrem de crises sociais menores ou surgem como trampolim político para líderes demagogos que pretendem eleger-se a altos cargos públicos, e se são eleitos rapidamente se esquivam de suas promessas eleitorais e governam com os mesmos vícios dos seus antecessores. Nos últimos 58 anos da vida política brasileira, surgiram pelo menos três lideranças demagogas que chegaram à presidência da República através de inconsistentes projetos populistas aceitos por parcelas significativas dos eleitores como programas redentores, através dos quais uma nova época seria instaurada no país. Com seus projetos de governo similares, centrados no combate à corrupção, Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo quando se instalaram no poder deixaram evidente à população tanto seu centralismo autoritário como a fragilidade dos seus projetos governamentais. Incapazes de governar nos limites do poder executivo, conviveram mal principalmente com o poder legislativo, e rapidamente isolaram-se no poder, selando assim o destino inevitável de ambos: Jânio renunciou e Collor foi cassado por corrupção, trazendo duas graves crises institucionais para o país. O terceiro Cavaleiro da Esperança é o presidente Jair Bolsonaro, eleito por empolgados seguidores que votaram nesse candidato seduzidos pela sua promessa de abolir dos meios políticos a corrupção ou por sua ideia regeneradora de não praticar com o Congresso Nacional a velha política clientelista de trocar cargos públicos por apoio ao governo. Prestigiado pelos seus eleitores moderados e idolatrado pelos eleitores mais fanatizados, Bolsonaro formou um ministério de notáveis, parecendo indicar que seu governo seria o espelho das promessas da campanha eleitoral. Mas em seguida, incompatibilizou-se com o Congresso Nacional e com o Judiciário, mostrando assim os seus primeiros traços de uma personalidade autoritária, com dificuldades para governar em um sistema democrático alicerçado na divisão dos três poderes institucionais. Em seguida, demitiu vários ministros em decorrência da rotina administrativa, mas ao demitir os ministros da Saúde e da Justiça, abriu uma grave crise institucional em seu governo, que abalou a sustentabilidade da sua administração. Apesar do apoio que recebe tanto do seu ministério como dos seus seguidores mais fanáticos, Bolsonaro sentiu o golpe e iniciou recentemente negociações com o os políticos do centrão no Congresso Nacional, sinalizando à sociedade que pode jogar na cesta de lixo suas promessas eleitorais de ser incompatível com a velha política de trocar cargos públicos pelo apoio parlamentar ao seu governo. Este artigo foi escrito no início desta semana, ou seja, é muito prematura a percepção dos resultados práticos dessa aproximação, pois cada vez que os bolsonaristas sectários saem às ruas pedindo poderes excepcionais ao presidente, a maioria da sociedade brasileira e suas instituições democráticas reagem positivamente contra a irracionalidade de minorias despolitizadas, a quem o presidente deu a voz para defender sua confusa ideologia autoritária. Mas a mentalidade de rebanho continua prevalecendo entre os truculentos grupos desconectados com os avanços da civilização ocidental, embora seu grito de guerra venha de uma minoria com pouco respaldo no conjunto da sociedade brasileira. E sem uma ideologia consistente, provavelmente o bolsonarismo será tão efêmero como o janismo ou o ademarismo. Mas como na vida civilizada há muito espaço para a liberdade, é bom manter esse azedume dos sectários longe da nossa vida, principalmente através do contagiante humor, que nos livra pelo menos momentaneamente de ter que pensar no atraso que essa gente representa para o conjunto da sociedade. O pensador Ralph Waldo Emerson, comentando política, afirmou: “-Uma seita ou um partido político é um eufemismo elegante para poupar um homem de ter de pensar.” Ou esta afirmação do ex-presidente Getúlio Vargas: “-Política é esperar o cavalo passar.” E por lembrar de presidentes da República eméritos, acrescento o humor do também ex-presidente Juscelino Kubitschek: “-Se me virem dançando com mulher feia é porque a campanha eleitoral começou”. E também este desabafo de Millôr Fernandes: “-Não fosse a política, todos poderíamos ser melhores.” Karl Kraus também colocou sua colher de humor na política: “-O segredo do demagogo é se fazer passar por tão estúpido quanto sua plateia, para que esta imagine ser tão esperta como ele.” Acrescento mais este frase anônima: “-Não conte para mamãe que eu entrei para a política. Ela pensa que eu ainda toco piano em um boteco de vila.” E para encerrar, vai uma frase do presidente francês Charles De Gaulle: “-Como nenhum político acredita no que diz, fico sempre surpreso ao ver que os outros acreditam nele.” E através do humor, podemos entender melhor o que é a política de poder, e sua relação com o eleitor preso ao rebanho.

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