PUBLICIDADE

Nas antigas sociedades agrárias, as mudanças significativas do tempo eram comemoradas através dos rituais religiosos típicos de cada povo. O significado religioso dessas alterações do tempo decorria do estágio cultural dessas civilizações. Predominava então uma estrutura econômica agrária, a base da sustentação desses povos, que cultivavam o solo através de técnicas frágeis, muitas vezes insuficientes para garantir colheitas fartas, que garantissem o sustento da coletividade. Essas fragilidades no sistema agrícola, eram compensadas pelos rituais religiosos, através dos quais a coletividade solicitava a imprescindível colaboração dos deuses para a obtenção de colheitas fartas. Por essas razões, o início das estações climáticas anuais era comemorado religiosamente, pois tinham um significado religioso, já que o clima e as passagens marcantes do tempo estavam controladas pelos desejos dos deuses. A divisão do tempo nas quatro estações, e a constância dos ciclos climáticos marcados pelos extremos anuais com um dia e uma noite, mais longas e mais curtas, eram fenômenos climáticos tradicionalmente observados e interpretados por esses povos, cujos sacerdotes se especializavam na investigação da movimentação dos astros, conseguindo muitas vezes conhecimentos preciosos nesta área. Essas informações, arduamente conseguidas através de metodologias limitadas, forneciam as bases teóricas que auxiliavam na divisão do trabalho agrícola, orientado de acordo com a diversidade do tempo, e contribuíam para imprimir certa racionalidade à produção dos alimentos. Entretanto, esse suporte científico à prática agrícola estava mesclado às concepções religiosas animistas dos povos antigos, que direcionavam essas coletividades ao apelo sistemático aos seus deuses, responsáveis não só pelos conhecimentos fornecidos aos sacerdotes, mas também pela condução do universo. E como condutores do universo, os caprichosos deuses cultuados pelos povos antigos adquiriam poderes absolutos sobre a coletividade, e exigiam obediências e agradecimentos, cuja satisfação era demonstrada através dos rituais religiosos conduzidos pelos sacerdotes, os autorizados intermediários entre os deuses e a população. Mais emotivos do que pensados, esses rituais seguiam normas rígidas, e repetiam-se durante o ano de acordo com as marcantes mudanças climáticas e a localização dos astros em cada estação. Observando o movimento dos astros e os indícios das variações climáticas, os sacerdotes formavam o calendário anual dos rituais, divididos geralmente entre as quatro estações, com destaques para o equinócio e o solstício. Esses rituais eram adequados ao calendário agrícola, dividido principalmente entre as datas máximas que marcavam o início do plantio e da colheita agrícola. Envolvidas pelos deuses, as antigas sociedades agrárias viviam matizadas pela concepção religiosa animista da vida, que permeava todo o cotidiano coletivo, e acompanhava cada indivíduo do nascimento à morte. Nestas sociedades, a vida era sacramentada, e cada acontecimento notável na vida grupal deveria ser considerado e vivido como resultante da vontade dos deuses.

Em nossa sociedade racionalista, científica e tecnológica o significado religioso da vida cada vez mais assume um sentido racional, lógico e explicável pelas ciências. As mudanças climáticas, a renovação dos dias e das noites, a divisão anual do tempo, as mudanças de localização dos astros, as regras das práticas agrícolas são fenômenos explicados pelas ciências, e eliminam gradativamente a explicação de suas origens através da vontade dos deuses. Como integrantes inseridos nesta sociedade, não comemoramos mais as passagens do tempo e as variações climáticas religiosamente como comemoravam os povos agrários antigos, pois até a religiosidade dos monoteísmos que permeiam nossa sociedade diferem da religiosidade de nossos ancestrais. E por essas razões históricas e culturais comemoramos a passagem para o ano novo como uma data de confraternização universal entre os povos.

PUBLICIDADE