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Os tropeços de Alá

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Alá foi concebido em uma cultura de pastores, habitantes do árido deserto, vivendo em tendas rústicas e mal protegidos de um sol incremente, ávidos pelo descanso nos escassos oásis existentes naquele areal imenso. Esses pastores veneravam as forças difusas da natureza, concebidas através de uma religiosidade animista, herança das sociedades primitivas. Maomé conviveu entre estes pastores, mas conheceu as delícias da vida urbana, permeada por uma elite de letrados, cultivadores da sofisticada cultura clássica de Roma e Atenas, civilizações orgulhosas do princípio filosófico do Logos, responsável pelo brilho de sua cultura urbana. Dotado de uma personalidade sensitiva comum a todo profeta, Maomé escreveu o Corão convicto de que recebera a inspiração divina para concebê-lo. Criou uma religião monoteísta, resultante do compromisso entre a cultura dos gregos e a do oriente médio, que conviviam oscilantes e antagônicas, mas selaram uma religiosidade simbiótica entre os animismos dos povos tribais do oriente médio e a racionalidade clássica, que produziu o Logos como a Razão criadora do universo e da vida. Desta fusão, forçada por uma interpretação etnocêntrica, surgiu o monoteísmo islâmico. Em busca de um equilíbrio conflitoso na prática religiosa, a história do islamismo é uma oscilação pendular, decorrente do ecletismo das culturas que aglutinou. Nas ricas cidades árabes, onde predominava o comércio estimulador da tolerância entre gregos, romanos e árabes, prevaleceu um Alá moderado e receptivo à racionalidade do Logos clássico, mais contido do que o Deus patriarcal, guerreiro e punitivo, típico dos povos do oriente médio. E Maomé não escapou dessa dualidade. Profeta ungido por um Deus guerreiro, combateu o animismo tribal, unificou os árabes antes dispersos em tribos autônomas dirigidas pelos patriarcas, mas solidificou e pacificou um império imenso, que atingiu a península ibérica e facilitou a vida urbana, onde floresceu um Alá moderado. E após o episódio das Cruzadas, os árabes estabilizaram-se em seu território, dividindo-o entre os apetitosos califas, e atingiram um equilíbrio político, que garantiu a expansão do seu comércio com os povos da Europa ocidental. Esse convívio pacífico possibilitou a longa prática da vertente moderada do islamismo entre os árabes, e contribuiu para a penetração da cultura grega entre as elites intelectuais das cidades marítimas dos califados, posteriormente transmitida à sociedade feudal europeia.
Como essa vertente moderada da religião islamita cedeu espaço na sociedade contemporânea ao sectarismo das seitas islâmicas xenófobas, adeptas de um Alá guerreiro, defensor do monopólio religioso islâmico? Resultou da migração das populações, até recentemente acantonadas nos desertos, para as cidades dos países árabes, que trouxeram sua herança religiosa tribal evocadora de um Alá guerreiro e imperialista. Surpreendidos e indignados com a influência do capitalismo ocidental nessas cidades, resistiram a essa ocidentalização através de sua visão religiosa tribal, que nega o convívio pacífico entre as diversas culturas existentes nas sociedades urbanizadas. É esta incapacidade cultural de viver democraticamente, resultado do autoritarismo próprio da vida tribal, que atualmente sustenta um Alá intolerante com as demais religiões e culturas. Alimentadas pelas arrogantes intervenções políticas e militares dos países imperialistas ocidentais nos conflitos entre os países árabes, essas populações aderem facilmente ao terrorismo patrocinado pelas seitas islâmicas sectárias. E no extremo desse sectarismo, surgiu o fundamentalista Estado Islâmico, um retrocesso histórico e religioso incompatível com o pluralismo cultural da modernidade, e demonstrado dramaticamente no último dia 13, através da matança de inocentes em Paris. São os tropeços de Alá.

 
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